Corrida pela inteligência artificial provoca perdas bilionárias na bolsa
Os investimentos bilionários em inteligência artificial (IA) começaram a pressionar as ações das maiores empresas de tecnologia do mundo. Após a divulgação dos resultados trimestrais, Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft enfrentaram questionamentos sobre o retorno dos gastos com infraestrutura. O movimento atingiu também fabricantes de chips e reacendeu o debate sobre uma possível bolha no setor.
Alphabet perde quase US$ 500 bilhões em valor de mercado
Na quinta-feira (29), as ações da Alphabet, controladora do Google, caíram 12,64%, na maior desvalorização diária da empresa desde sua abertura de capital, em 2004. Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta citado no material original, a queda eliminou US$ 493,9 bilhões, cerca de R$ 2,7 trilhões, de seu valor de mercado em um único pregão.
Para dimensionar a perda, o montante equivale a 55,82% do valor de mercado total das empresas listadas na bolsa brasileira, estimado em US$ 885 bilhões.
A desvalorização refletiu a preocupação dos investidores com os gastos crescentes em infraestrutura de inteligência artificial e a capacidade da empresa de transformar esses investimentos em resultados financeiros. A Alphabet também apresentou receita abaixo das expectativas e aumento expressivo dos gastos de capital, fatores que contribuíram para a reação negativa do mercado.
A pressão se estendeu a outras companhias. Após a divulgação dos resultados, a Amazon registrou queda de aproximadamente 7% nas negociações após o fechamento do mercado, segundo o material original. Juntas, Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft perderam quase US$ 900 bilhões em valor de mercado após a divulgação dos balanços do terceiro trimestre.
Queda atinge índices e fabricantes de chips
A desvalorização das empresas de tecnologia pressionou os principais índices de Wall Street. No fechamento de sexta-feira (30), o Nasdaq recuou 2,9%, aos 25.437 pontos. O S&P 500 caiu 1,8%, aos 7.580 pontos, enquanto o Dow Jones perdeu 1,1%, aos 51.770 pontos.
Entre as empresas, a Amazon recuou 1,49%, enquanto a Alphabet permaneceu sob pressão após a queda do dia anterior.
A fabricante de semicondutores Intel também registrou forte desvalorização. Suas ações caíram 28,6%, na maior queda diária desde 1974, de acordo com os dados fornecidos. A empresa enfrenta dificuldades próprias, incluindo a fraqueza do mercado de computadores pessoais, problemas na fabricação de chips e os custos para ampliar sua capacidade produtiva.
Outras companhias do setor também foram atingidas. A Nvidia caiu 4,2%, a AMD perdeu 10,9% e o índice de semicondutores recuou 7,2%.
Em outubro, o Nasdaq 100 acumulava queda superior a 5,8%. Caso o movimento se mantivesse, a desvalorização poderia eliminar mais de US$ 2 trilhões em valor de mercado do índice no mês.
Bilionários perdem US$ 70 bilhões em patrimônio estimado
A queda das ações também reduziu o patrimônio estimado de alguns dos empresários mais ricos do mundo.
Segundo o Bloomberg Billionaires Index, Larry Page e Sergey Brin, cofundadores do Google, perderam juntos US$ 60,7 bilhões em suas fortunas na quinta-feira (29). Page registrou uma redução de aproximadamente US$ 31,6 bilhões, enquanto a fortuna de Brin diminuiu US$ 29,1 bilhões.
Jeff Bezos, fundador da Amazon, também foi afetado. Seu patrimônio estimado caiu US$ 9,48 bilhões no mesmo dia.
Somadas, as perdas dos três empresários chegaram a US$ 70,18 bilhões.
A redução não significa necessariamente que os bilionários tenham retirado esse dinheiro de suas contas ou vendido ações. O cálculo reflete principalmente a queda no valor de suas participações nas empresas.
Investimentos em inteligência artificial aumentam
Por trás da reação do mercado está a dimensão dos recursos destinados ao desenvolvimento da inteligência artificial.
Segundo levantamento da Reuters citado no material original, Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet elevaram seus investimentos em infraestrutura de US$ 113 bilhões para US$ 207 bilhões em um ano. A previsão mencionada era de outros US$ 232 bilhões em investimentos no trimestre seguinte.
Para 2026, os gastos de capital das quatro empresas poderiam chegar a US$ 740 bilhões, conforme estimativas citadas no texto. Os recursos são destinados principalmente à construção de centros de processamento de dados, à compra de chips e à expansão da infraestrutura necessária para treinar e operar sistemas de IA.
A Amazon investiu cerca de US$ 75,9 bilhões no terceiro trimestre, acima dos US$ 58,7 bilhões esperados pelo mercado. A Alphabet destinou mais de US$ 50 bilhões à expansão de sua infraestrutura. A Microsoft investiu US$ 45,2 bilhões, enquanto a Meta registrou gastos de US$ 35 bilhões no período.
O tamanho desses investimentos também aparece nos números de fluxo de caixa.
Em outra análise atribuída à Reuters, que considera Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle, as cinco empresas investiram juntas US$ 556,9 bilhões nos primeiros nove meses de 2026. No mesmo período, geraram US$ 542,9 bilhões com suas operações.
O grupo passou de um saldo positivo de US$ 143,5 bilhões em fluxo de caixa livre nos primeiros nove meses de 2025 para um resultado negativo de US$ 14 bilhões neste ano.
O fluxo de caixa livre representa o dinheiro que sobra depois das despesas operacionais e dos investimentos. Quando fica negativo, indica que os recursos gerados pelas operações não foram suficientes para cobrir os gastos considerados no cálculo.
Para os investidores, o desafio é avaliar quanto tempo será necessário para que os investimentos em IA se convertam em receitas e lucros capazes de compensar os custos.
“O mercado continua confiante na demanda por inteligência artificial, como mostram os resultados crescentes da área de computação em nuvem. Mas os investidores passaram a cobrar mais das empresas: não basta anunciar grandes investimentos em IA, é preciso mostrar que eles estão se transformando em receita e, principalmente, em geração de caixa”, afirma Nickolas Lobo, especialista de investimentos da Nomad.
Celso Camilo, doutor em inteligência artificial e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), também chama atenção para o volume de recursos destinados à infraestrutura.
“São bilhões de dólares destinados a centros de dados, chips e infraestrutura, enquanto a capacidade de transformar tudo isso em receita ainda está sendo construída”, afirma.
Empresas recorrem a empréstimos e ao mercado de ações
Com o aumento dos gastos, as gigantes de tecnologia também buscam recursos fora do caixa gerado por suas operações.
A Microsoft, por exemplo, levantou US$ 25 bilhões por meio de uma emissão de títulos de dívida. Segundo o material original, os recursos podem ser utilizados para diferentes finalidades corporativas, incluindo investimentos de capital.
O movimento ocorre em meio às preocupações com a possibilidade de juros mais altos nos próximos anos. Caso as taxas aumentem, os empréstimos podem ficar mais caros, elevando o custo de financiamento dos projetos.
As empresas também podem recorrer à emissão de novas ações para captar recursos. Nesse caso, os acionistas atuais podem ter sua participação proporcional reduzida se não acompanharem a operação.
A mudança no financiamento é acompanhada pelo mercado porque pode aumentar a exposição das companhias a dívidas e à necessidade de captar novos recursos para sustentar a expansão.
Investimentos em IA levantam debate sobre possível bolha
A queda das ações reacendeu a discussão sobre uma possível bolha de investimentos em inteligência artificial. A preocupação não significa, necessariamente, que os especialistas considerem a tecnologia uma promessa sem fundamento.
“A tecnologia é real, já está sendo utilizada e tem capacidade de transformar diversos setores da economia. O que considero exagerado são algumas expectativas de valorização”, afirma Celso Camilo.
Para o professor, o risco está na diferença entre o potencial da tecnologia e o preço que os investidores aceitam pagar hoje pelas ações, considerando lucros que ainda não chegaram.
Nickolas Lobo também avalia que o debate não deve se limitar à ideia de que a inteligência artificial é uma bolha. Na avaliação do especialista, o mercado está mais atento ao ritmo de crescimento dos investimentos e à capacidade das empresas de transformá-los em resultados.
“O vencedor da próxima etapa não será necessariamente quem investe mais, mas quem gera retorno sobre o capital investido”, afirma.
O desempenho das ações indica que, além de ampliar a infraestrutura de inteligência artificial, as gigantes de tecnologia precisam demonstrar como os gastos podem sustentar o crescimento das receitas, melhorar o fluxo de caixa e gerar retorno financeiro.